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CASA, ABRIGO PSÍQUICO

Habitar vem do substantivo hábito (do latim habitus), que significa “estado ou modo de ser”. Uma certa maneira usual e cotidiana de ser, fazer e sentir que tende à repetição. Desde que nascemos, vamos construindo nossos modos de ser, experimentando, nos expondo ao ambiente, a diferentes materialidades naturais e construídas, às pessoas e relações. Mas o sentido maior do habitar relaciona-se à nossa morada, nossa casa – lócus de abrigo e proteção. Esse espaço físico e psíquico vem apresentando aspectos expressivos do espírito contemporâneo. A casa, hoje, é puro afeto. Quanto mais percebo o investimento e a dedicação que temos para com nossos lares, construindo um mundo com predomínio do belo e do admirável na sua face mais humana, o afetivo, mais me intriga a relação que construímos com esse habitar. Um mundo de crises plurais nos coloca desnudos diante da vida, revelando nossa imensa vulnerabilidade e a busca de acolhimento, e um abrigo mais psíquico do que físico parece ser a saída quase que obrigatória. Temos possibilidades diversas de harmonizar nossos espaços com móveis que remetem às memórias ou às aspirações futuras, plantas exuberantes ou delicadas que nos reconectam com a natureza, objetos que encantam, fotos e porta-retratos que contam histórias, tecidos que envolvem, cores que falam às nossas sensibilidades…

Nossas salas, quartos, cozinhas, varandas, banheiros são a expressão do que somos, mas também do que precisamos para viver, quase em um sentido de construir o que nos falta – e, hoje, o que nos falta é afeto. A crise da sensibilidade e da empatia tem uma expressão muito particular na forma como valorizamos nosso lar. E o “hit do afeto” é a almofada: como manifestação do carinho e do acolhimento, ela atende ao olhar porque é linda; responde a nossa tatilidade porque é macia; incorpora as mais variadas narrativas (infância, viagens, gosto, temas, marcas…) com imensa flexibilidade; é tendencialmente acessível e, com isso, cumpre a função de ícone da afetividade sem marcas de status social, sendo democrática.

A casa vem sendo, há muito, o signo da nossa identidade: é ali que expressamos nossa familiaridade, nossos quereres e prazeres… Hoje, ainda mais, ela é o signo do que nos falta, do que é vital para nossa vida. Precisamos de afeto, de abrigo psíquico e é nela que encontramos essa possibilidade real, com certa independência das relações humanas.

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